Thursday, May 29, 2008

Um dia

Fica a imagem de uma campanha publicitária que considero genial e que, a cada pacote de açúcar, me dá que pensar.

Passamos a vida a fazer planos e a adiá-los, com a desculpa de que "um dia" teremos tempo, dinheiro, companhia, disposição ou oportunidade de os realizar. E os dias sucedem-se até que esse dia chegue... ou talvez não.
Lembremo-nos apenas que todos os dias são bons dias para comprar flores, para vestir uma roupa bonita, para ler um livro, ir ao cinema, ligar àquele amigo que não temos visto, inscrevermo-nos naquele curso que sempre quisemos fazer... para viver, para sorrir, para sonhar e, sobretudo, para fazer algo no sentido de concretizar esses sonhos.

Sunday, May 25, 2008

Preto e Branco

Uma noite a preto e branco tingida pelas cores da verdadeira amizade, aquela que meses depois do último encontro se mantém viva nos sorrisos, nos gestos, nas palavras e nos silêncios. Sinto saudades do tempo em que vos via todos os dias.. Orgulho-me dos amigos em que esse tempo nos transformou, permitindo-nos viver noites como esta.
(24 Maio 2008)

Saturday, May 24, 2008

Casados de fresco

Ontem o Pedro casou. O primeiro, o nosso pioneiro nessa união com outro alguém num passo que encerra em si o compromisso da eternidade.
Emocionei-me. Emociono-me denovo ao relembrar, ao ver as fotografias. E penso em tudo o que aquele dia significa nas suas vidas. Independentemente de todas as dúvidas e reflexões acerca do casamento, religioso ou não, e do seu valor e importância numa relação e nos dias de hoje, é inegável que se trata de um marco na vida de duas pessoas.
Estamos a ficar crescidos... e o Pedro e a Irina não deram apenas azo a um sonho ingénuo de criança; deram antes um passo firme de adulto na construção do seu futuro. Quanto a mim, só desejo que esse futuro seja espelho do dia do seu casamento no qual, apesar do vento e chuva (até de árvores a cair!), brilhou o sol, fez-se sentir o calor dos afectos e viu-se a felicidade estampada nos seus sorrisos.
(11 Maio 2008)

Friday, May 23, 2008

Greves e graves

Também eu tenho motivos para andar descontente, desde o trabalho precário, à remuneração como bacharel apesar do grau de licenciatura, à ausência de perspectivas de progressão numa carreira que está suspensa há anos, à falta de condições de trabalho... Mas, que me desculpem todos os grevistas, sindicalistas e outros istas ferranhos: que greve é esta feita a uma sexta feira (como quase todas, curiosamente), a seguir a um feriado?! Que impacto tem este tipo de data a não ser o de agravar a ideia de que o funcionalismo público se resume a um conjunto de baldas, pontes, entradas tardias e saídas precoces com muitas pausas para descanso pelo meio?! E mais: que definição de serviços mínimos é esta, na qual colocar e retirar uma arrastadeira não está incluída mas mudar uma fralda está, obrigando assim pessoas continentes a urinar e evacuar na fralda, num completo desrespeito pela sua dignidade?! Onde ficam a responsabilidade e a ética profissionais?!
Greve é, sem dúvida, um direito dos trabalhadores. Direito ao protesto, à luta por tudo o que lhes assiste, mas não direito "à balda". É uma manifestação contra o patronato e nunca contra o cidadão seu cliente, neste caso os doentes que, na prática, são quem realmente sofre.
Não me queixo de ter posto as arrastadeiras que pus, de ter dado os banhos que dei sozinha, de ter feito as camas desocupadas, de ter limpo e arrumado bacias, de ter carregado com jarros de água quente, de não ter o material reposto, de ver os sacos do lixo cheios e mal cheirosos... de nada. A não ser desta atitude generalizada de "deixa-andar" à qual não consigo nem quero aderir.

Wednesday, May 14, 2008

Por uma vida melhor


Termina já dia 18 a exposição de Gérald Bloncourt, uma exposição de fotografias complementada por documentários acerca da emigraçãp portuguesa em França nos anos 50/60. Numa palavra: impressionante.

Na minha família ninguém fez parte deste movimento migratório massivo e, talvez por isso, não imaginava o quão difíceis foram aqueles tempos. A par da miséria que viviam muitos em Portugal, trabalhando de Sol a Sol e tirando da terra o seu fraco sustento, muitas vezes pautado pela fome, pelo frio e pela frustração de não poder dar aos filhos o conforto e a educação que mereciam, estavam num país atrasado, marcado pela ditadura e pela censura, pela ignorância e pela opressão... e assim partiam "a salto", clandestinos, caminhando descalços pelas montanhas dos pirinéus quando a sola dos sapatos se gastava de vez, passando fome e sede, dormindo ao frio entre as vacas para se aquecerem, até chegarem onde sonharam encontrar trabalho, dinheiro e, assim, uma vida melhor.

Mas encontravam bairros de lata, terrenos de lama, exploração no trabalho, ordenados escassos e atrasados, meses e anos de sofrimento enquanto reconstruiam uma França moderna e desenvolvida, país da Igualdade, Liberdade e Fraternidade, que fechava os olhos à sua presença miserável e desumana. Por cá, nada de novo... apenas um número cada vez maior de fugas clandestinas para esse mesmo destino.

Mas nas cartas à família, confessam eles, apenas contavam coisas maravilhosas, tentando convencer quem ficava que a vida lhes sorria agora, envergonhados de mostrar a sua verdadeira condição.

Os anos passaram para muitos e trouxeram algumas melhorias... pelo menos casas de tijolo e telha, pelo menos a possibilidade de chamar os filhos para junto de si, de os enviar para a escola... Alguns voltaram, atraídos pelo apelo da terra-mãe e das memórias de infância e juventude, finda a ditadura e a guerra colonial que levou tantas vidas na sua geração. Mas os filhos ficaram, os netos nem português falam... e assim se perdem as memórias destas vidas divididas e sofridas.

Os olhos ficaram húmidos muitas vezes ao longo do tempo que ali passei, vendo aquelas imagens e ouvindo aqueles testemunhos. E no final, além da emoção, a clara noção de que muito pouco mudou. Muitos portugueses (e cada vez mais) emigram em busca do que aqui lhes falta, assim como muitos africanos e europeus de leste (só como exemplo) vêm para cá em busca do que lhes falta nas suas terras. E o que encontram? Um país que ignora as suas carências, que os usa como mão de obra barata, marginaliza e deixa acumular nas periferias das grandes cidades em autênticas bidonville à portuguesa.

Em suma, está naquelas salas um conjunto de memórias de uma época que marcou uma geração em dois países e cuja história vemos repetir-se, hoje como no passado, passivamente.

Friday, April 25, 2008

So many answers still blowing in the wind...

O novo anúncio da Galp, a propósito da selecção de futebol, tem como banda sonora Paths of Victory e fez-me ter vontade de regressar ao som do Bob Dylan, ouvir denovo algumas músicas daquela sua combinação única: voz, guitarra, harmónica, boas letras... A simplicidade vinda de um universo tão complexo como o do artista e da pessoa que ele é. Aqui fica Blowing in the wind, a minha preferida.

How many roads must a man walk down
Before you call him a man?
Yes, 'n' how many seas must a white dove sail
Before she sleeps in the sand?
Yes, 'n' how many times must the cannon balls fly
Before they're forever banned?
The answer, my friend, is blowin' in the wind,
The answer is blowin' in the wind.
How many years can a mountain exist
Before it's washed to the sea?
Yes, 'n' how many years can some people exist
Before they're allowed to be free?
Yes, 'n' how many times can a man turn his head,
Pretending he just doesn't see?
The answer, my friend, is blowin' in the wind,
The answer is blowin' in the wind.
How many times must a man look up
Before he can see the sky?
Yes, 'n' how many ears must one man have
Before he can hear people cry?
Yes, 'n' how many deaths will it take till he knows
That too many people have died?
The answer, my friend, is blowin' in the wind,
The answer is blowin' in the wind.

Hoje é também o dia em que se comemora a revolução que devolveu a liberdade e a democracia ao nosso país... Talvez esta música tenha tudo a ver com a data passada, mas também com o momento presente e com tantas respostas que o vento nos sussurra e que continuamos sem consegir entender.

Monday, April 7, 2008

E a polémica continua...

Muito se tem falado nas últimas semanas de violência nas escolas, tema trazido à ribalta pelo episódio da Escola Carolina Michaelis. Não deixa de ser curiosa a onda que se gerou em volta deste caso, motivando o debate e mobilizando toda a opinião pública, dividida algures entre os que condenam a aluna e os que condenam a professora. No entanto, não me parecem muitos os que páram para questionar o que significa aquele episódio (bem como outros que têm sido divulgados depois) no contexto actual.
A geração dos meus pais e as anteriores foram educadas em ambientes mais hostis, quer em casa, quer na escola, onde a autoridade do professor era incontestável e os castigos com palmatórias e orelhas de burro ditavam a lei. Quanto à minha geração, penso que tivemos a sorte de viver numa época mais moderada e informada, na qual os conhecimentos de pedagogia e psicologia deram os seus contributos e os castigos físicos eram já raras excepções. Hoje, que temos? Crianças insubordinadas, que não respeitam minimamente a autoridade das pessoas mais velhas, quer sejam pais, avós, professores ou quaisquer outros. A maioria dos nossos adolescentes têm telemóveis desde tenra idade, televisão no quarto, acesso ilimitado à internet; as miúdas vestem-se e produzem-se de modo provocante e passeiam-se nos autocarros às 8 da manhã maquilhadas como para uma sessão fotográfica; os seus maus resultados na escola são desculpados pelos pais com a má qualidade dos professores; reclama-se a toda a hora das exigências do sistema educativo, luta-se para acabar com as provas nacionais e diminuir a um nível insignificante o seu peso na avaliação dos alunos e no seu acesso ao ensino superior; pressionam-se as escolas, os professores para não reprovar os meninos, sob pena deles ficarem "traumatizados"; perdoa-se-lhes a sopa e a fruta às refeições e premeiam-se as birras com brinquedos e jogos violentos, roupas de marca, bolos e guloseimas; criam-se homens e mulheres arrogantes, a quem pouco ou nada dizem valores fundamentais, que não sabem lidar com a frustração e que têm como principal objectivo o protagonismo fácil e sem mérito de aparecer em series de televisão tão vazias de conteúdo como as suas próprias vidas.
Enquanto "no meu tempo" um comportamento como o da aluna do vídeo seria uma excepção, hoje é toda uma turma que assite, apoia, filma e publica o que se passou. Enquanto na minha turma de secundário um professor, melhor ou pior, conseguia manter a ordem na sala de aula, a autoridade desta professora é discutida no confronto físico com a aluna e não através dos órgãos apropriados: direcção de turma, conselho disciplinar... ou será que todas estas formas de organização escolar foram entretanto extintas? E os pais, onde andam e onde pára a sua responsabilidade no meio disto tudo?!
Não, não éramos nenhuns santos. Nem o somos hoje, evidentemente. Resta saber como serão estes jovens, daqui por uns anos.